domingo, 5 de janeiro de 2025

NOTÁVEIS DA MINHA TERRA - 7

 JOAQUIM SOARES DE SOUZA BAPTISTA

                                                                                                                                                                                Por: Bastos Xavier

  Deambulávamos por aqui e «tropeçámos» com um texto que o Eng.º Bastos Xavier fez publicar no jornal paroquial «Valongo do Vouga» de Junho de 1974, dedicado no seu todo ao grande benemérito da freguesia que foi Souza Baptista. Dava a entender que existia, por parte da freguesia e da sua população, uma certa ingratidão para com esta personalidade ímpar e que, certamente, não voltará a ser igualado. De certa forma os tempos eram outros, o modo de vida e os rendimentos eram diminutos, os meios para angariação de condições de vida aceitáveis eram parcos ou quase inexistentes numa população rural  e quase analfabeta.
Melhor do que repetir alguns adjetivos acerca desses tempos e dessa personalidade será, certamente, seguir o que o Eng.º Bastos Xavier - a quem pretendemos dedicar brevemente uma pequena biografia - deixou transparecer na sua exposição, que foi do seguinte teor:

«Temos nas croniquetas anteriores procurado dar uma ideia do que era a vida da nossa gente antes da chegada deste Homem a quem tive a honra de acompanhar nalguns passos mais significativos da sua vida ilustre. Daí o reparo que já fiz de que a Câmara lhe não estampasse o nome da esquina duma rua. Vão-me dizer que o ambiente em que se manifestou a sua benemérita acção foi a freguesia, não o concelho. Meu Deus! Concelho e freguesia devem estar inteiramente ligados. O bem de um reflete-se no outro. As figuras ilustres da freguesia são-no também do concelho. Ferraz de Macedo, da primeira Câmara republicana, é o exemplo, como já dissemos. O bem ou o mal de um órgão afecta todo o corpo. Mas volvamos ao assunto em causa.
        Quando Souza Baptista chegou à nossa terra vindo do Brasil para onde partira por conta do Estado Brasileiro com o seu curso de regente agrícola, em que era distinto, a nossa freguesia vivia mal, sem trabalho, e por isso sem pão, como já se escreveu. Era grande o numero de cavadores ao «alto», era por isso grande o número dos lares  miseráveis. Nem todos podiam ser ferreiros, nem todos podiam ser cardadores se bem que este ofício de ocasião estivesse, por assim dizer, generalizado entre todos os cavadores. Perante esta trágica circunstância, Souza Baptista logo de inicio não hesitou: cuidou em dar trabalho nas suas propriedades aos desempregados. Depois olhou para o bem da sua terra, trazendo-lhe logo o telégrafo e depois o telefone. Voltou-se então para os baldios ,chamando a atenção para a sua riqueza em prospetos que à sua custa  mandou distribuir pela freguesia, e o caso é que eles foram todos distribuídos sem que os Serviços Florestais se apoderassem de alguns, como sucedeu em outras freguesias que não tiveram um guia à altura intelectual dele. Para dar exemplo semeou no maninho um grande pinhal de que falava com justificado orgulho.
        Construiu a Casa do Povo em que gastou mais de mil contos. Foi, com justa causa,  Procurador na Câmara Corporativa e dava à Casa do Povo o ordenado que aí recebia. Quis instituir na Casa do Povo uma música, fez sacrifícios, mas a falta de vocação da nossa gente não o consentiu. Todavia pagou à sua custa o instrumental. Abriu à nossa gente um campo de jogos. Fez também à sua custa estradas e fontes e obteve do Estado a comparticipação em outros melhoramentos. Trouxe a rede eléctrica, acabou pagando-a e  entregou os seus rendimentos à Casado Povo. Construiu duas capelas em  Arrancada e reformou a igreja. Estudou economicamente a vida da freguesia, publicou em jornais artigos valiosos e até um interessante livrinho sobre a vida rural da nossa gente.. Deve-se a ele o apeadeiro de Valongo e para tanto teve à sua custa de fazer trabalhos na linha.
     Foi, enfim, entre nós um grande Homem. Dizemo-lo sem paixões. Apenas chocado pelo esquecimento a que o votaram aqueles que tanto beneficiaram com as suas dádivas.
        Leitor, ânimo: são para ti estas minhas palavras de justiça, não de lisonja que não adianta elogiar os mortos. Mas agora que a freguesia tem um jornal (quanto ele o apreciaria) entendi ser do meu dever fazer-te conhecer a injustiça que estás praticando com esse Homem, um dos maiores da freguesia.
        Todos nós, ricos ou pobres, lhe devemos muito. Mas os pobres ainda mais que os ricos. Já há muito que o devíamos ter feito, mas já que as circunstâncias agora o permitem, focamo-lo nesta ocasião. Temos de perpetuar a sua memória num monumento de bronze que testemunhe aos vindouros o nosso sentimento de gratidão. Para tal realização, esperamos o auxílio de todos, ricos ou pobres.             Mas esperamos que o auxílio principal venha dos pobres que ele, a seu modo, tanto amou. Tu, cavador honesto, que já hoje vives razoavelmente, lembra-te dos anos de fome que passaste que foi ele que veio até ti, não dar-te a esmola humilhante mas o trabalho de que necessitavas para teu sustento e dos teus.
        Mostra a tua gratidão numa oferenda que sirva para perpetuar a memória deste Homem. Dá o que puderes e o que julgares do teu dever, dá mesmo 1$00. Nós aceitamos tudo. Mas esperamos mais dos pobres a quem Joaquim Baptista valeu. Por isso recebemos com mais carinho as dádivas dos que outrora foram pobres, abandonados, miseráveis. Se eles não corresponderem ao nosso apelo, iremos de chapéu na mão pedir dinheiro aos ricos. E para te mostrar que fazendo este apelo aos pobres me não ponho de fora, encabeço a lista com 500$00 e fico à espera da contribuição que te é devida.
       Foi a primeira vez que encontraste um patrão generoso e compreensivo, um Homem superiormente inteligente em que a caridade era mais uma conclusão da razão que uma imposição do sentimento. Por isso o seu valioso auxílio não era a tua humilhação.
Dá, dá sem reservas, que a memória desse Homem tudo merece. Ficamos esperando por ti. Entrega a tua dádiva à Comissão que vai formar-se.

a) - Bastos Xavier
Nota:
As imagens que foram selecionadas para ilustrar esta nota, são as que possuíamos e achamos mais condizentes com o texto. Como havia no arquivo que possuímos a fotografia com sua esposa, Maria Sintz de Sousa Baptista, achamos que não deslustra, porque foi a companheira que esteve sempre ao seu lado apoiando o seu marido em tudo o que achava por bem proporcionar ao seu semelhante.


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