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sábado, 27 de junho de 2026

SOBERANIA DO POVO... E...(3)

 ...AS NOTICIAS DE VALONGO  ANTIGAMENTE

Em 27 de agosto de 1927

ACESSOS AO APEADEIRO DE VALONGO

    De acordo com o que anteriormente foi escrito, continuamos a mostrar as notícias da freguesia de Valongo do Vouga, publicadas no semanário «Soberania do Povo». A que a seguir se apresenta está datada de 15 de agosto de 1927 e viu a sua publicação confirmada no número do dia 27 daquele més.
     A  redação deixa perceber nitidamente qual era o estado da estrada de acesso ao apeadeiro de Valongo do Vouga, acentuado pela expressão pitoresca e popular que brevemente se podia passar a «pé enxuto». Imagine-se como seria até aí. 
  Que condições oferecia a estrada, utilizada pelas poucas pessoas e o diminuto trânsito ao tempo para passar do Outeiro para a Santa Rita, onde aquela infraestrutura se situa?
    O corpo da notícia está ainda composta com outros acontecimentos. Mas estes estão em texto corrente não tendo sido entre si feita qualquer ressalva ou destaque com um título adequado. Situações e coisas que a evolução se encarregou de corrigir...




(A digitalização não está nas melhores condições mas admite-se ser possível a sua leitura)




sábado, 6 de junho de 2026

SOBERANIA DO POVO - E AS NOTICIAS... (1)

 ...DE VALONGO ANTIGAMENTE 

- UMA PEQUENA EXPLICAÇÃO:

Vista panorâmica com base no Pinheiro Manso-Pedrozelo

    Admitimos ser necessária a explicação que se segue para justificar os títulos que encimam este apontamento - e outros que contamos trazer aqui, por neles se encontrarem algumas curiosidades e até alguma história. 
     As notícias de Valongo, com uma antiguidade na porta dos 100 anos, eram presença normal e assídua no semanário SOBERANIA DO POVO - que ainda é o único e mais antigo semanário que se publica no concelho de Águeda - e no país - que está a caminho dos 150 anos ininterruptos, é, como dizia o ex-diretor e particular amigo Celestino Viegas, a «Torre do Tombo» de Águeda». Nele podemos consultar as mais variadas curiosidades que outrora foram notícia. E hoje já fazem, nalguns casos, autêntica história.
    Temos, nos nossos arquivos informáticos, vários ficheiros com notícias de Valongo do Vouga, do princípio do séc. XX que foram, na sua maioria, redigidas por  António Rosa da Silva Magalhães, que por nós foi destacado com uma biografia em janeiro de 2017, com o título "António Magalhães - ENCENADOR, POETA E LAVRADOR (1896 - 1986)" .
      Com a autorização concedida pelos responsáveis de então daquele jornal, obtivemos digitalizações de muitas dessas notícias, que apresentam factos, acontecimentos e outras facetas curiosas, destacando-se a forma como eram redigidas, próprio da época e da grafia vigente e com um tratamento completamente diferente das regras atuais utilizadas no jornalismo. 
   Propomo-nos trazer até aqui algumas dessas digitalizações, crentes que irão proporcionar algumas curiosidades... Assim o esperamos. Uma particularidade inicial reside no facto destas digitalizações se encontrarem - como se referiu - no patamar de um século após a sua publicação. Eis uma delas publicada em 16/7/1927, datada em Brunhido em 7/7/1927.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

COISAS DE BAÚS - 11


   

AGUIEIRA - UM CASAMENTO EM 1929

         Temos em arquivo informático uma razoável quantidade de ficheiros digitalizados do semanário  'Soberania do Povo', com notícias da freguesia de Valongo do Vouga, que hoje fazem a nostalgia e a recordação de coisas, factos e pessoas. É o caso da notícia que aqui se deixa reproduzida. 
       Foi redigida pelo mais antigo correspondente daquele semanário nesta freguesia - António Rosa da Silva Magalhães - que ao tempo residia em Brunhido, tendo mudado para o lugar Fermentões, onde faleceu decorria o ano de 1986.
            Os visados na notícia foram residentes no lugar de Aguieira, naquele desvio da estrada no centro deste lugar que vai para a Cumeada conhecido por 'Casal' .
Era nesta casa que residiu o Dr. Augusto Gomes Tavares dos Santos, tendo desempenhado funções de Chefe da Secretaria Judicial do Tribunal da Comarca de Águeda, casado com Lucília Melo Pires dos Santos. O enlace matrimonial verificou-se em Vilarinho do Bairro, onde residia a D. Lucília.    
        A estes acontecimentos verificados no início do séc. XX, já tivemos oportunidade de historiar por um 'post' em 'http://www.terrasdomarnel.blogspot.com" em 27 de fevereiro de 2016, no capítulo "Gente destas Terras - 49".



domingo, 11 de janeiro de 2026

NOTÁVEIS DA MINHA TERRA - 11

 O GRANDE CAÇADOR DO CONCELHO DE ÁGUEDA


Numa linguagem popular, tanto mexemos que encontramos sempre alguma coisa...

E desta feita encontramos uma notícia publicada no semanário "Soberania do Povo", publicada em 1 de Junho de 1929, de que se deixa a sua digitalização.
Aliás, a notícia é acompanhada de outros apontamentos noticiosos que foram da autoria do Valonguense, António Rosa da Silva Magalhães, na altura o correspondente daquele que é o mais antigo semanário do País. Mas o destaque e a originalidade vai todo inteirinho para uma Notável figura que foi o Sr. Manuel Ferreira Rachinhas, residente no lugar de Aguieira, que além da carreira profissional nas funções de carteiro dos CTT em Aguada de Cima, como se conhece, foi considerado um exímio caçador no concelho de Águeda. Como, aliás, a notícia o refere e exalta.

Transcrevemos a parte que nos interessa desta notícia, que por aqui já foi destacada em devido tempo, e diz assim:

'O Sr. Manuel Rachinhas, de Aguieira, é o caçador de maior vocação do concelho, o mais legítimo rival do velho Dr. Jaime.
Conseguiu agarrar, a semana passada, em noites sucessivas, 3 interessantes raposas novas, e já ameaçou de morte as próprias mães, as quais teimam em dizimar a capoeira e coelheira do sr. Aires na Carvalhosa, a quem só numa noite mataram 15 coelhos e 2 galinhas. Merece uma condecoração da Comissão Venatória!'

Ao que parece a Comissão Venatória terá ignorado o feito do sr. Manuel Rachinhas...
 



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

COISAS DE BAÚS - 9

OS PARTOS NAS AMBULÂNCIAS             

  Com uma impressionante regularidade, somos fustigados diariamente em todos os meios da nossa Comunicação Social com notícias relacionadas com a saúde, nomeadamente no que respeita às especialidades de Obstetrícia, Ginecologia e demais congéneres.
 Tomamos conhecimento das mais inusitadas situações que têm acontecido e vão acontecendo por este país da beira-mar plantado. Somos confrontados com os argumentos políticos que os casos vão suscitando, a respeito, nos «profissionais» da nossa praça. E as situações em vez de diminuir vão aumentando provocando, - «vê-se a olho nu» - uma preocupação pelas consequências nefastas que têm originado.
   Andávamos por aqui a remexer em papéis velhos, (ou papéis antigos? Agora tanto faz!) mantendo o também antigo vício de guardar tudo, na esperança de que um dia seja aproveitado para recordar ou para qualquer outro fim, quando encontramos um que, parece, foi por nós redigido a meias com o "Chefe de Redação" (Armor Pires Mota) do semanário Soberania do Povo, de 8 de janeiro de 1993, que relatou um acontecimento precisamente do mesmo género daqueles que agora nos são presenteados, passado na freguesia com uma pessoa do lugar de Brunhido, neste caso sem consequências...
    Neste mesmo apontamento verificamos (do que já não nos lembrávamos) que foi 'lavrada a nossa tomada de posse' como CORRESPONDENTE daquele semanário na freguesia de Valongo do Vouga.
       Pela curiosidade, aqui deixamos esta nota coincidente com o que se passa na atualidade. Esperamos que a digitalização esteja e seja legível. Cremos que ao clicar na imagem a mesma aumenta o tamanho facilitando e tornando viável a leitura.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

COISAS DE BAÚS - 8

 GUINÉ - 1963--1965

O JORNAL DA CASERNA

 


    Como foi antecipadamente esclarecido, decorre neste mês de Julho o aniversário da nossa partida e estadia, durante dois anos e um mês, em território Africano da Guiné-Bissau, integrando uma Unidade Militar que, como a história tem clarificado, tinha em vista a manutenção da administração portuguesa, neste e em outros territórios daquele continente. Na sorte que nos coube, como a tantos outros jovens que nos idos anos de 60/70, séc. XX, não escapavam a ter de partir, sem garantias de regresso, para estas paragens Africanas e de outras latitudes do mundo.
    A adaptação, com parcas e minguadas informações sobre tudo o que a tais territórios dizia respeito, havia uma formação e informação, antes da partida, principalmente o que se relacionasse com as doenças tropicais, algumas caraterísticas do seu povo, modo de vida, etc., ministrada por Jovens Aspirantes Oficiais Milicianos promovidos, na data de embarque, a Alferes Miliciano.
    Constituía uma pesada tormenta olhar quase diariamente para o calendário - havia quem riscasse cada dia que ia passando - esperando-se ansiosamente que o tempo corresse mais depressa.
    Depois eram as formas que cada um ia "construindo" os seus passatempos, desde tratar periquitos (e outras aves exóticas) com os espetaculares treinos que se ministravam, conseguindo-se que se apresentassem num evoluído estado de domesticação.
    Além dos macacos, primatas que constituíam as delícias dos seus tratadores que, como se sabe, imitavam com algumas peripécias os gestos e outras atitudes humanísticas. Claro que para além de um vasto conjunto de atividades mediante as possibilidades de cada um, dos seus conhecimentos e dos meios que ao seu redor pudessem deitar mão.
    No caso em apreço, também nos dedicamos a um passatempo e vejam para o que nos deu... publicar um jornal.. a que "vaidosamente" intitulamos Jornal da Caserna.
    O termo "Caserna" é subentendido no edifício que servia de dormitório do pessoal militar. Logo devia exprimir uma orientação de conteúdo que tivesse origem no seu interior. Mas nem sempre foi assim. O seu conteúdo era plasmado por passatempos, redações curiosas socioeconómicas locais. E pretendeu ainda ser cópia de um jornal a sério, tendo ficticiamente, como é notório o cabeçalho com aquele título, o "DIRETOR", ADMINISTRADOR e o EDITOR. Todos identificados elementos integrantes dos quadros daquela Unidade Militar.
    Como isto já vai longo, diremos que aqueles elementos foram por nós convidados, sendo o Diretor "HÉRCULES" o escriturário da Companhia, antagonicamente um "magricelas", o Administrador "MASSINHAS" por ser o homem do "pilim" e o Editor (nós próprios) "ZÉ CANGALHEIRO" porque tinha o propósito de, naquela qualidade, publicar o que fosse mais adequado e que, diga-se em boa verdade, nunca o tivesse feito.
    Há ainda que historiar a forma como começou, como progrediu graficamente, face às técnicas que ainda não existiam, o trabalho, enfim, um ror de coisas que só se avaliam comparando o que temos atualmente com o que naquele tempo ainda era desconhecido. Levanta-se, neste caso, a ponta do véu, referindo que na primeira folha  do tamanho A4, o desenho inserido no cabeçalho, da autoria do Alferes Armando Augusto Geraldes Soares, retrata a frente, junto da estrada, do aquartelamento que ocupamos em INGORÉ.
    A estas recordações voltaremos...

sábado, 12 de julho de 2025

COISAS DE BAÚS - 7

     

HISTÓRIAS DA GUINÉ

    Como ficou clarificado no anterior post, está a decorrer o aniversário das inclementes idas forçadas de jovens militares para territórios Africanos, que tinham por missão impedir que os movimentos organizados em guerra de guerrilha, que procuravam obter, pela força das armas, a almejada independência e autodeterminação da parte dominante, neste caso de Portugal.
    No que a nós diz respeito a sorte, pela força da idade, calhou-nos nos anos de 1963 a 1965. Eram dois anos de tempo de vida militar, como é demais sabido, havendo casos, conforme a especialidade, que atingiram cerca de quatro anos de ausência do país, da família, do trabalho.
    E agora restam-nos as recordações do que foi esse tempo, durante o qual também será lógico evidenciar que se criaram laços, e se fomentaram aproximações entre povos e até se constituíram famílias. E as realidades da vida quotidiana lá se  ia desenrolando, criando-se ansiedades quanto ao regresso cujo tempo parecia que nunca mais chegava ao seu términus.
    Os registos dessas recordações iam ficando em rudimentares máquinas fotográficas, como as que aqui se reproduzem. Em cada um dos registos ficam descritas algumas curiosidades, tanto no tempo (aproximado deque nos recordamos), ao modo de vida e às finalidades que representavam.

Foto obtida por volta de 1963/1964. Um edifício junto da estrada principal, a escassos três ou quatro quilómetros da fronteira com o Senegal e que nos serviu de Secretaria da Companhia que ali permaneceu cerca de um ano. O edifício fora alugado aos serviços militares por um imigrante português e que serviu de «local do nosso trabalho» administrativo, em substituição do1º Sargento, que fora evacuado para Lisboa por motivo de acidente de viação, ou seja, éramos o responsável pelo bom andamento do serviço administrativo que era adstrito à Subunidade Militar. Um possível momento de pausa, enquanto não se retomava o trabalho.

Não dá para se perceber. Mas sabemos perfeitamente o que estava nas mãos, nos braços e nos ombros. Local denominado BULA, muito conhecido por se tratar de um nó rodoviário (de terra batida) e local bastante estratégico da guerrilha, nas zonas de Mansoa, Mansabá, Binar, Bissorã. O que transportamos nos ditos membros superiores, não é nada mais, nada menos, que notas do Banco Nacional Ultramarino, entidade que era responsável  pela emissão de moeda em alguns territórios sob administração portuguesa. Como se compreende facilmente tinha acabado de fazer um levantamento, provavelmente para o pagamento do pré. 

Esta foto foi registada na estrada que liga Bissau ao Aeroporto e ficava sobranceira ao Hospital Militar. Pela aparência, será fácil deduzir que estava de licença, de trinta dias, passada relativamente afastado da guerrilha. 
E com uma vantagem; nesta Unidade de Saúde Militar prestaram serviço dois conterrâneos, um deles de Arrancada do Vouga, sobejamente conhecido; o segundo, dos lados de Casal de Álvaro componente da Banda de Música desta localidade e companheiro de trabalho na fábrica de ferragens Amaro, Lda. O Hospital, felizmente, não serviu para a cura de qualquer mal, mas com a condescendência destes dois amigos, serviu sim de hospedagem durante aqueles trinta dias.

Em conclusão, resta acrescentar que mais havia e haverá a contar. Que se guarda para melhor oportunidade .


sexta-feira, 4 de julho de 2025

COISAS DE BAÚS - 6

 O IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS

Uma história em 14 de julho de 1964

    Fazer uma explanação sobre os Impérios que existiram no mundo, não é difícil. Afloramos este caso, em particular, para afirmar que Portugal também esteve entre as potencias colonizadoras, ao lado da Inglaterra, França, Estados Unidos da América, Espanha, Bélgica, Holanda e outros países europeus que se evidenciaram na ocupação de territórios asiáticos, sul-americanos, africanos, etc..    
    Sabemos pela história a influência que Roma produziu quanto aos Impérios que dominaram o mundo, principalmente no Norte de África e Médio Oriente sendo por demais conhecidos os Imperadores Romanos que reinaram. Outros Impérios existiram aos quais a história guardou o seu bocado. O que importa, por agora, será recordar e trazer à tona das águas o papel que Portugal desempenhou no que respeita ao desenvolvimento do fenómeno que proliferou e conheceu o seu apogeu nos seculos XV, até  aos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX .                                                                                                                                                                                                                              Bula-Guiné (Bissau) 1964
    Na realidade, este pequeno país que possuía apenas o mar para explorar, chegou a ser, já no século XX, a maior potência mundial no que se refere ao Império que dominava. Claro que importa evidenciar quais eram as possessões que só  há pouco   mais de cinco décadas se tornaram independentes por efeito  do golpe de Estado ocorrido em 25 de Abril de 1974, como é conhecido.

    Os territórios que passaram a constituir o Império Português, hoje países independentes, eram Cabo Verde,  S. Tomé e Príncipe, Guiné (Bissau), Angola, Moçambique, Macau e Timor.

 Claro que está implícito, agora, saber-se o porquê deste apontamento histórico; É que como é de mais conhecido, Portugal passou por um período longo de guerra de guerrilha, que se desenvolveu dentro daqueles territórios, apoiados por países  vizinhos ou organizações nestes instaladas, procurando "expulsar" com a força das armas o dominador. O regime político de então mantendo uma decisão em nada condizente com a evolução dos tempos e do que outros países já tinham decidido em conceder por meios pacíficos a autodeterminação e independência desses povos, mobilizou no serviço militar obrigatório todos os jovens que eram colocados a combater os movimentos de libertação em atividade naqueles territórios.

    Assim se verificou que em quase todas as  casas de um Portugal pequenino, havia alguém que era mobilizado obrigatoriamente e "enviado" para aqueles paragens distantes, sabendo-se antecipadamente que o resultado final seria sempre a negociação para uma ulterior troca de poderes.

    Foi assim que em Julho de 1965 - precisamente no dia 14 daquele mês de uma canícula não tão violenta como a que agora sentimos - nos meteram numa cargueiro que detinha o nome de «SOFALA» e, com mais umas centenas de camaradas militares dos diversos ramos das forças armadas, fomos enviados para a Guiné (Bissau). Já lá vão 60 anos!!!!

    É evidente que  esta história não acaba aqui. Antes pelo contrário, começa aqui...

    Com efeito um documento conhecido por Caderneta Militar, no qual era registada toda a carreira militar que os jovens dos anos sessenta e setenta, séc. XX , tinham percorrido nas fileiras das Forças  Armadas de Portugal.

    Ora, será lógico dizer-se que não fugimos a esta obrigatoriedade e no referido documento, além de ouros factos que não importam focar, está escrito o seguinte:

"Página 20 - Ocorrências Extraordinárias:
1963 - Nomeado nos termos da alínea c), do art.º 3.º do Dec. 42937, de 22-4-60 para servir no Ultramar. Embarcou em Lisboa em 14 de Julho com destino ao CTI da Guiné; fazendo parte da CCaç. 462. Desembarcou em Bissau a 21 de Julho, desde quando conta  100% de aumento no tempo de serviço. 1965. Embarcou em Bissau, de regresso à Metrópole, em 7 de agosto, desde quando deixa de contar 100% de aumento no tempo de serviço. Desembarcou em Lisboa em 14 do mesmo mês."

Esta nota recordatória justifica-se por estarmos próximos do dia 14 de Julho, data do aniversário deste acontecimento, que não deixa saudades.

Nota: - Na foto com uniforme de gala, pronto para desfile  que não se  realizou, porque o local, conhecido por BULA, era um importante nó rodoviário da Guiné e sito nas proximidades das instalações militares do Comando de Batalhão de Caçadores 507, em importante zona de guerrilha onde permanecemos cerca de um ano.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

HISTÓRIA DA MINHA TERRA - 3

 O CÓDIGO DE POSTURAS 

E OS BALDIOS

O Código de Posturas da Junta de Freguesia de Valongo do Vouga, que foi aprovado e aplicado na sua área territorial no ano de 1947, continha alguns factos, talvez um tanto inéditos naquela época, os quais constituem história. Esses factos estão relacionados com propriedades designadas por BALDIOS.
Os BALDIOS eram terrenos não pertencentes a qualquer cidadão ou outra entidade, ou seja, numa linguagem vulgar, não eram propriedade de ninguém.
Existe profusa e esclarecedora definição destas propriedades no meio cibernauta, que nos permitimos citar, por exemplo, o site https://ffms.pt/pt-pt/fundacao, da Fundação Alexandre Soares dos Santos, que descreve:

"Baldios são terrenos destinados a servir de logradouro comum dos vizinhos de uma povoação ou de um grupo de povoações. Destinam-se à satisfação de certas necessidades individuais, como a apascentação de gado, a apanha de lenha ou o fabrico de carvão de sobro. A sua origem resulta da necessidade que os moradores de aldeias rurais, vivendo da exploração familiar, tinham de dispor de espaços incultos onde pudessem exercer as actividades complementares da atividade agrária".

Seguem-se mais definições e outras informações acerca desta matéria. É do conhecimento geral o que representaram os BALDIOS na vizinha freguesia do Préstimo. Originaram uma forte movimentação, nomeadamente na Comunicação Social, que justificou durante um largo período de tempo regulares reportagens publicadas no semanário local "Soberania do Povo", da autoria do poeta e jornalista bairradino (e particular amigo pessoal) Armor Pires Mota, com a epígrafe O Préstimo a Caminho de Lisboa - As Arbitrariedades dos Serviços Florestais.
Nestas reportagens em que também participámos, acompanhados por um grupo de jovens ao tempo, a sua repercussão foi enorme, quer ao nível do concelho, do distrito e até do País.
Na freguesia os Baldios foram, como se referiu, importante fator de interesse e alguma repercussão económica. A Junta de Freguesia presidida pelo conceituado professor João Batista Fernandes Vidal, em nota de rodapé naquele documento jurídico, no CAPÍTULO II - Património Paroquial, diz que "Todos os terrenos ditos baldios e de logradouro comum existentes na freguesia são bens próprios da Junta - porque os comprou - e constituem Património Paroquial". 
E as anotações do prof. Vidal são seguem:
    "Façamos aqui um pouco de história, porque aos vindouros interessa saber a razão porque esta freguesia dispõe dos seus baldios, nos quais eles podem estender a vista no enlevo de viçosos talhões de arvoredo que ali possuam, a troico de uns míseros tostões que pagam à Junta, enquanto que às freguesias vizinhas não é dado gozar de tal regalia. Pois essa regalia de que hoje se goza nesta freguesia só se deve às nossas  canseiras.
        A questão da posse dos baldios vinha de longe e já no tempo da Monarquia, em 1883 uma Câmara houve que deliberou considerar paroquiais os baldios de Macinhata e Valongo. Mas outra Câmara veio que anulou aquela deliberação, por inconsistente, e  os baldios continuaram em posse do Município.
Com o advento da República quis o acaso que, como agora, presidíssemos aos destinos desta Junta.
     Como sabíamos de sobra que o melhor futuro da freguesia - que é pobre - estava na posse e aproveitamento dos seus baldios, encetámos a campanha pró-posse destes baldios, campanha em que encontrámos sempre o melhor auxílio do velho amigo, Sr. Casimiro de Oliveira Bastos, que era então secretário da Câmara Municipal de Águeda. Mas a verdade é que conversações, abaixo-assinados, representações, etc., tudo esbarrava com a mesma dificuldade: a falta de base legal para o reconhecimento dessa posse. Podia qualquer Câmara resolver esse reconhecimento. Mas, como tal resolução não tinha fundamento legal, outra Câmara viria anulá-lo, como já sucedeu no tempo  da Monarquia.
    O certo é que esta questão vinha-se arrastando havia já meia dúzia de anos sem se descobrir maneira de legalmente ser resolvida. Contudo, não desistimos de cogitar na maneira de resolver o problema  que sempre considerámos de vida ou  de mote para a vida económica da freguesia. Até que um dia ocorreu-nos uma ideia, ideia Providencial: A Junta compraria os baldios à Câmara!
    Esta transação era inteiramente legal, mediante o cumprimento de certas formalidades exigidas pelo Código Administrativo então vigente, aliás fáceis de realizar.
    Corremos logo a expor ao então presidente da Câmara e nosso amigo, Sr. Celestino da Silva Neto anosa ideia, que ele achou genial, admirando que tal ainda não tivesse lembrado a ninguém. (É a história do ovo de Colombo «Muitas coisas fáceis não lembram  toda a gente").
    Obtido o assentimento de toda a Câmara, logo se resolveu o negócio e, cumpridas as formalidades legais, tanto por  parte da Junta como da Câmara, foram, finalmente, os baldios desta freguesia adjudicados à Junta, por escritura de 5 de janeiro de 1947, pela quantia 200$00 (duzentos escudos)."

    E concluiu o presidente da Junta de Freguesia em 1947:

    Dos enormes benefícios que esta solução trouxe à vida económica da freguesia já hoje ninguém duvida. São muitos milhares de contos (ao tempo, um conto correspondia a 1.000$00=5€) que cá ficam e que, sem ela, veríamos ir para fora, como está sucedendo às freguesias  vizinhas, cujos homens - como também os houve cá dentro - se permitiram de nos censurar asperamente pela solução que demos ao caso dos baldios. Hoje sentimo-nos largamente recompensados dessas censuras ao ouvir dizer aos mesmos ou aos seus conterrâneos: «As nossas freguesias não tiveram, como a de Valongo, quem cuidasse dos seus interesses e por isso lhe estamos agora a sofrer as consequências, porque os nossos baldios passaram à posse da Junta de Colonização Interna (Florestal) privando-nos assim das grandes regalias que os de Valongo estão fruindo com a posse dos seus».
    É esta uma grande verdade, verdade que naquele tempo ninguém via, mas que nós nunca descurámos nem descansámos enquanto definitivamente não conseguimos ver resolvido o magno problema da posse dos baldios da freguesia.
    E assim fica narrada, com verdade, a história dos baldios de Valongo do Vouga, para os curiosos que desejam conhecê-la."

    Mas mais elementos históricos existem;

    Possuímos fotocópia de uma certidão de teor que foi passada no ano de 1973, pela Repartição de Finanças do Concelho de Águeda, a requerimento do presidente da Junta de Freguesia então em exercício,  Sr. Manuel da Fonseca Morais, a qual narrativamente faz a descrição de mais de 100 (cem) artigos de propriedades rústicas em nome da Junta de Freguesia em 34 páginas datilografadas.
    Sabe-se que entre essas propriedades avultam terrenos de grandes dimensões, de pinhal e outras árvores, que naquele  ano de 1947 constituíam formas de alguma fortuna e riqueza.

    


sábado, 22 de março de 2025

COISAS DE BAÚS - 6

 GUINÉ-BISSAU

CLUBE DE FUTEBOL "OS BALANTAS DE MANSOA" 


            A fotografia foi obtida por mim, com uma máquina fotográfica que em 1965 era possível possuir. Permanecemos neste local alguns  meses e daqui nos deslocámos para Bissau a fim de embarcar de regresso a casa.
                 Foi interessante conhecer a sede do Clube de Futebol "Os Balantas", que se situava na cidade de Mansoa, importante núcleo populacional e situada na região administrativa do Oio, onde a guerrilha tinha alguma atividade considerada constante e bastante perigosa.
                Banhada pelo rio Mansoa, Balanta é uma palavra que significa "aqueles que resistem" . Grupo étnico de origem nìgero-congolês que se encontra dividido entre a Guiné-Bissau, Senegal e a Gâmbia. É o maio grupo étnico da Guiné-Bissau com mais de 25% da população do país.
                Voltando ao clube: Fundado em 18 de setembro de 1946, foi uma filial do clube de futebol "Os Belenenses", de Portugal. Foi o primeiro clube campeão da Guiné-Bissau após a independência deste território, ex-colónia portuguesa, que se verificou em 1974, como é sabido.
                    O estádio de nome "Estádio Corea Sow" Tem uma capacidade de 3.000 lugares.










sábado, 1 de março de 2025

COISAS DE BAÚS - 4

OS REGEDORES DA FREGUESIA

Quando em 13 de Janeiro passado postámos uma pequena biografia do Eng.º Bastos Xavier, ficou-nos na retina da memória o episódio de não ter sido reconduzido na presidência da Câmara Municipal de Águeda, por discordar dos argumentos que o governo invocou para não reconduzir o regedor de Recardães que, como sabemos, é uma freguesia do nosso concelho. 
Esta  curiosidade "empurrou-nos"  para a pesquisa do que foi e o que representava a figura do Regedor numa freguesia, ou até paróquia, quando estas  foram oficialmente reconhecidas, levando-nos até a recordar uma pessoa da freguesia de Valongo do Vouga que desempenhou estas funções. Mas vamos por partes:

A CRIAÇÃO:

REGEDOR: Foi a designação atribuída a alguns magistrados e funcionários em diversos países, com funções variáveis, sendo esta função adotada em Portugal com a reforma administrativa de Mouzinho da  Silveira de 1832, pelo que cada paróquia teria um órgão administrativo local (a Junta de Paróquia) e um magistrado administrativo representante da administração central conhecido por Comissário de Paróquia.
Entretanto o Código Administrativo de 1836 substituiu o Comissário de Paróquia pelo Regedor,  com competências semelhantes.

AS COMPETÊNCIAS:
As competências dos Regedores eram um tanto ou quanto análogas às dos administradores dos concelhos, agindo subordinados a estes à escala paroquial e, essencialmente, as suas funções consistiam em garantir o cumprimento e a aplicação das leis e regulamentos administrativos, tendo ainda cumulativamente autoridade policial na área da freguesia.
A  última regulamentação dos Regedores foi estabelecida pelos Códigos Administrativos de 1936 e 1940, em pleno apogeu do conhecido e apelidado regime fascista.

AS FUNÇÕES:
Entretanto o Regedor deixou de ter as funções de magistrado administrativo, passando a ser o representante do presidente da Câmara e nomeado por este, com exceção dos concelhos de Lisboa e Porto.
Resumidamente as funções passaram a ser a de cumprir e fazer cumprir as ordens, deliberações, posturas municipais e os regulamentos de polícia,  levantar autos de transgressão sempre que necessário, auxiliar quando justificável, as autoridades policiais e judiciais de modo a garantir a ordem e a tranquilidade públicas, auxiliar as autoridades sanitárias, garantir os regulamentos funerários, mobilizar a população em caso de incêndio e cumprir e fazer cumprir outras ordens ou instruções emanadas do presidente da câmara municipal.
Repete-se que a figura do Regedor criada pelo Decreto de 20 de Novembro de 1830, foi extinta na sequência da introdução da Constituição da República Portuguesa de 1976, em consequência do golpe de estado de 25 de Abril de 1974, como se sabe.

UNIFORME:
Como autoridade, o Regedor tinha de se distinguir, como hoje, na sua apresentação, através de um uniforme. Este  era constituído por uma casaca azul, com um ramo de carvalho em ouro bordado em cada uma das golas, colete de casimira branca, calças azuis, botas e chapéu redondo. A casaca e o colete teriam botões com as armas reais. O chapéu teria o laço nacional e uma presilha preta, na qual estaria gravado o nome da freguesia.

AJUDANTES: 
O Regedor tinha ajudantes para as tarefas que ficam esplanadas, designados por cabos de polícia, sendo a sua influência diminuída, à medida em que  foram alargadas à intervenção da Polícia Civil (que passou à Polícia de Segurança Pública nas área urbanas) e, mais tarde, da Guarda Nacional Republicana nas áreas rurais.

O REGEDOR NA FREGUESIA DE VALONGO DO VOUGA:

Seria completamente inaceitável passar esta passagem histórica sem se referir um pouco do que foi o Regedor e as suas funções na Freguesia ribeirinha do Marnel: Valongo do Vouga.
Na realidade as suas funções existiram, como sabemos  e foram desempenhadas por pessoas que aqui tiveram a sua residência. O último foi MANUEL ALMEIDA BRANCO, pessoa que residiu no lugar da Veiga.
O Sr. "Manuel Regedor", como vulgarmente era tratado e conhecido, que muitos de nós conhecemos, era uma pessoa educada, afável, de bons relacionamentos com a maioria da população e aqui constituiu família.
Ao contrário de alguns dos seus comparsas no cargo, que chegaram a tomar posições e atitudes ditatoriais, não procurava nem se fazia valer da sua autoridade, antes pelo contrário era respeitador e, por isso mesmo, muito respeitado. Não impunha, colaborava com quem quer que fosse, ajudando sempre no seu múnus com elegância e aprumo. Não se fazia valer de horários nem invocava impossibilidades para não colaborar fosse com quem fosse, o dia da semana ou as horas do dia.
Nas suas funções, era obrigatório que a GNR nas suas rondas, necessitava legalmente de comprovar e confirmar a sua passagem e autenticar o seu serviço junto do Regedor, para o qual este sempre se mostrava disponível, além de outras intervenções a que fosse solicitado.
Mesmo junto dos seus descendentes (mormente de seu filho Celestino), não foi possível obter em tempo oportuno uma imagem que pudesse completar melhor este apontamento sobre o Regedor da freguesia de Valongo do Vouga, que, como é fácil de perceber, a sua história está profusamente descrita na Wikipédia, de onde nos socorremos e cujas descrições adaptámos para recordar um pouco da nossa história.
Na toponímia da freguesia de Valongo do Vouga, lugar da Veiga, uma foi dado o nome de Rua do Regedor recordando esta função. Nas funções de Regedor, sucedeu ANTÓNIO GOMES DA SILVA, que residiu em Arrancada do Vouga, na rua Dr. Eduardo da Silva Bastos.

CAPELA E REGEDOR

Foi referida a impossibilidade de obter uma fotografia do protagonista deste naco de história local, para ilustrar este post. Admitimos que para o efeito nada melhor que a fotografia da capela local, que por sinal se situa mesmo frente à residência do Sr. MANUEL ALMEIDA BRANCO, de invocação de N.ª S.ª das Pressas, conforme livro da autoria do Pe. Manuel Domingos Rebelo, com o título "O CULTO A MARIA NA DIOCESE AVEIRO",  edição do Movimento dos Cruzados de Fátima, Dezembro de 1989, com a fotografia na capa da belíssima imagem exposta na capela da Veiga.
Respiga-se do citado livro o seguinte: "Nesta invocação o termo "Pressas" não é antónimo de vagares. Esta palavra arcaica significa: apuro, dificuldade, obstáculo, situação crítica. (Cf. Grande Dicionário da Língua Portuguesa). Maria é a Senhora das Pressas, porquanto está pronta para resolver as nossas dificuldades".
É padroeira da capela da Veiga (Valongo do Vouga). A Corografia Portuguesa, tomo II, trat. II, cap. XXII, menciona esta capela ao tratar "Das vilas de Vouga, Brunide e Aguieira":
Também sobre esta capela, o "INVENTÁRIO ARTÍSTICO DE PORTUGAL - DISTRITO DE AVEIRO - ZONA SUL, editado pela Academia Nacional de Belas Artes - Lisboa 1959, tem uma vasta descrição sobre esta capela, a sua construção e a imagem rematando-se que "Houve aqui uma via sacra de cruzes de pedra, de grandes braços, de que restam algumas bases e outros fragmentos".
Por curiosidade, regista-se que sucedeu a Manuel de Almeida Branco, nas funções de Regedor ANTÓNIO GOMES DA SILVA, que residiu em Arrancada do Vouga, na rua Dr. Eduardo da Silva Bastos, e cremos que este foi o último antes da extinção do cargo.









sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

NOTÁVEIS DA MINHA TERRA - 8

 O CHICO 

Francisco António  da Silva Gomes dos Santos 

      
Intitular esta página com "O CHICO", nada tem de intencional ou pejorativo mas antes, talvez, tentar abusar um pouco da intimidade privilegiada que tive com esta ilustre personalidade da freguesia há umas décadas emigrado no Brasil. Mas afinal de quem se trata? Fazemos esta interrogação porque estamos convictos que haverá por cá muita boa gente que não se recorda. 

Abrimos um pequeno parêntesis para poder reavivar a sua identificação. O nome completo é aquele que está ali em cima. Seus pais foram os não menos ilustres Inspetor Arménio Gomes dos Santos - que não carece de mais apresentações - e Antónia Valente da Silva, insigne professora nas escolas de Arrancada do Vouga na década de cinquenta séc. XX.  (1)
Recorda-se que seu pai, o Inspetor Arménio, nasceu em 9 de  fevereiro de 1900 e faleceu em 30 de abril de 1971, de forma triste e trágica, caído junto ao portão de sua casa quando ia  pedir auxílio, ficando ali à chuva e ao frio toda a noite até ter sido encontrado pela manhã.
Quanto ao "Chico", já em 2 de abril de 2012, em outro blogue que aqui mantivemos, lhe dedicamos uma pequena nota que não resistimos em repetir e que «rezava» assim:

"O Chico foi meu colega de escola. Estava numa fila de carteiras que ficavam alinhadas do lado da parede, após a entrada da porta (lado direito) e fui colocado na segunda carteira, que, como se sabe, comportavam dois alunos. A primeira carteira desta fila era «chefiada» pelo saudoso João Vidal Xavier, há pouco falecido, filho do ilustre escritor, o Eng.º José de Bastos Xavier e de D. Dulce da Costa Vidal.
 Ao meu lado esquerdo ficava a outra fila de alunos da 4ª classe e, na primeira carteira, outro «chefe» intelectual quanto baste, ou não tivesse a hereditariedade que marcar a sua posição. Era professora a saudosa D. Beatriz de Jesus Araújo Moura. Como ela gostava de traduzir os significados deste nomes, que iam desde  a nobreza, religião, desporto à politica..
Há dias, desfolhando na Biblioteca Municipal,  em pesquisas para outros trabalhos, encontrei umas reportagens, nas quais participei (sem fazer nada), cujo autor foi Armor Pires Mota, uma série que era designada «POR ONDE A SERRA COMEÇA», que chegou a tratar de alguns lugares da freguesia, encostados à serra das Talhadas mas pertencentes à área da freguesia de Valongo do Vouga: Redonda, Salgueiro, Moutedo, Gândara a Cadaveira.
Em paralelo com essas pesquisas e com a recordação daquelas interessantes reportagens, encontrei uma referência no Jornal «Soberania do Povo» cuja digitalização aqui deixo, que, pela numeração e em conjugação  com outras reportagens e datas, deve ter sido publicada em 10 de abril de 1971. Infelizmente e imperdoavelmente, não tomei nota da data, que é elementar em pesquisas.
É com evidente saudade e outro tanto de sentimento de um dever, que o que encontrei diz respeito ao Francisco, hoje figura ilustre da Academia Brasileira, cujos degraus subiu a pulso próprio, antes de 1971, não sem conhecer e sentir o que foram as dificuldades porque passou até poder atingir o alto patamar da cultura e do saber. Esta é apenas uma singela lembrança."

O Chico deu-nos o privilégio de se  corresponder connosco já depois de estar no Brasil. Chegou a ser nomeado Comissário de Policia na cidade de S. Paulo-Brasil. Enviou-nos algumas fotografias, com a sua prole, já depois de ter constituído família. Foi o primeiro Português a desempenhar altos cargos públicos na  Magistratura Brasileira. Ofertou-nos o livro «A ÚLTIMA CEIA EM LISBOA», editado em 2001, numa linguagem a todos os títulos excecional e só admissível a quem conheceu o Chico. Trata-se de uma espécie de "reportagem" que pretendeu descrever uma confraternização que fora organizada na noite anterior à sua partida para o Brasil, realizada em Lisboa. E começava assim:

«Era a minha última ceia em Lisboa.
«Ali estávamos todos, sentados à larga mesa da pensão da dona FESSÓNIA. A nossa querida república de estudantes grulhas e madraços! As nossas idades iam dos dezoito aos vinte e cinco anos. Ali estava Portugal inteiro.»

E fazia alinhar as descrições de todos os «grulhas e madraços» que eram oriundos das mais variadas regiões do país, desde Trás-os-Montes, Entre-Douro-e-Minho, Alto Alentejo, Cais do Sodré-Lisboa, Ribatejo, OIivais (Lisboa), Travassos, Semide, Alfacinha (Lisboa), um conterrâneo de Eça. E rematava este introito desta forma:

«Eu era o homenageado, o valido herói, que iria a Sacavém na tarde seguinte, p´ra voar os céus do Atlântico, rumo à América e à Liberdade! Portanto, deram-me a outra cabeceira da mesa , onde, atestado de alegria e acanaveado de emoções, me sentia como numa charola.»

E na última página do livro, fecha assim o quadro:

"Ouvi um berro colossal no fundo do Tempo!
Desgrenhado, aflito, as gâmbias escanifres a pularem-lhe das cuecas, o Psítiros abanava-me:
- Chico, porra! O avião bate as asas daqui a uma hora!
Seria melhor que as não tivesse batido?
Ou que eu não houvesse acordado...?
Nunca, nunca o saberei...

E é esta singela e despretensiosa nota que deixamos por aqui para quem interessar.
Agradecemos ao Filipe Vidal, sobrinho do Chico, a amabilidade e simpatia colaborativa, revertendo a foto possível daquele seu familiar e nosso ilustre conterrâneo.
Inseridas ainda duas imagens - uma do jornal "Soberania do Povo" noticiando o seu brilhante percurso académico em S. Paulo (Brasil) e outra de seu pai - o Inspetor Arménio  - exibindo uma das suas pombas amestradas que possuía na sua casa, que conhecemos, sita junto da Escola EB 2,3. A última imagem é  de um dos dois edifícios (cada um com duas salas  de aula) da escola que existiram nas escolas primárias de Arrancada. Esta ficava do lado nascente da estrada à entrada daquela localidade e era destinada ao sexo feminino, onde lecionou a profª Antónia Valente da Silva e outra igual localizada no mesmo local junto da estrada que segue para Aguieira, que frequentámos durante quatro anos.


(1) - O regime político então existente em Portugal de cariz ditatorial e substituído pelo golpe de estado ocorrido em abril de 1974, como é sabido, tinha até no ensino uma organização nada condizente com as melhores regras da pedagogia, formação e educação, sendo os alunos separados, existindo salas para rapazes e salas para meninas. Durante o recreio, os rapazes não podiam juntar-se às raparigas nas suas brincadeiras e existia uma acentuada discriminação. Os docentes, ao contrário, eram maioritariamente constituídos por senhoras, havendo um diminuto número de docentes do género masculino. Naqueles anos de 1949 os rapazes tinham as suas salas e as raparigas outras (ao todo quatro). As professoras para todas as classes de rapazes e raparigas eram apenas quatro, sendo uma professora para a 1ª e 3ª classes e uma professora para a 2ª e 4ª classes, hoje designados por primeiro ciclo ou primeiro, segundo, terceiro e quarto anos do ensino básico.
    Estas professoras acumulavam as aulas ministrando as matérias dos programas estabelecidos para cada uma das classes, isto é o ensino era desenvolvido com as professoras a terem de se desdobrar para ensinar as crianças cumprindo os programas para cada uma das classes, durante um dia de aulas. Sabe-se que esta situação ainda é sobejamente conhecida de toda a população portuguesa.
    Já que estamos em maré de recordações, parece-nos oportuno historiar algo mais sobre o ensino daquela época de cinquenta do séc. XX. 
    As professoras exerciam uma rude disciplina sobre os alunos, nomeadamente aplicando castigos através das célebres reguadas violentamente dadas sobre as mãos de imberbes crianças, de madeira relativamente pesada, havendo ainda quem utilizasse as celebérrimas «menina de quatro olhos» - uma régua de madeira também pesada, ficando na ponta, em formato redondo, a parte de madeira que batia violentamente nas mãos da «vítima» e onde se situavam quatro furos que provocavam um efeito assaz doloroso.
    Um tempo a que não se pretende regressar, como se compreende.
  Resta ainda acrescentar que as professoras tinham um efetivo total de alunos que, não sabemos ao certo, andaria à volta de mais de quinze a vinte alunos por classe.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

COISAS DE BAÚS - 3

 O «CIVISMO» DOS OUTROS ANIMAIS

Em fevereiro de 1998, da nossa autoria, publicámos um apontamento com aquele título, no jornal paroquial «Valongo do Vouga». Como se tivesse achado alguma piada à fotografia, assim foi que se registou este facto cá em casa. Com efeito, um felino que existiu na  minha (nossa) companhia passou a ter um comportamento assaz curioso e, de máquina fotográfica em punho, lá andámos algum tempo até que se conseguissem reunir as condições ideias para concretizar o desejo de obter  uma imagem adequada, que se pode ver aqui ao lado. E  o texto que serviu de apresentação e explicação, foi este:

«Muitos animais, nomeadamente aqueles que andam na vertical, sob dois suportes que se chamam membros inferiores, terão, nalguns casos da sua vida, menor instinto cívico que outros que se suportam a quatro.
Na realidade, a foto tirada em casa da nossa freguesia e que, para ser obtida deu algum trabalho e  mostra (sem dúvidas) uma gata que, quando sente mais fortes as necessidades fisiológicas, não suja nem provoca a imundície que por aí se vê em muitos lados, conspurcando o ambiente,  como o fazem uma grande parte de humanos. Vai ao WC lá de casa, vira-se para o lado correto e vá de se «aliviar». 

Como estamos em tempos de recordações, não deixamos de partilhar «esta coisa» com os «visitadores» cibernautas.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

HISTÓRIA DA MINHA TERRA - 1

 IRMANDADE  DE  NOSSA  SENHORA  DA CONCEIÇÃO - ARRANCADA



Já por aqui foi descrita a história da fundação da Irmandade da invocação de Nossa Senhora, em Arrancada do Vouga, podendo afirmar-se com propriedade, que quase se perde na memória dos séculos, remontando a sua fundação ao início do século XVII.
Os primeiros Estatutos foram emitidos em Roma, pelo Papa Paulo V, como abaixo se pode confirmar na descrição histórica que se faz dos Estatutos. Já aforam aflorados alguns pormenores a respeito e que recentemente - a  8 de Dezembro - se reuniu para comemorar mais um aniversário, cuja tradição vem de muito longe. Com efeito, por meio de uma brochura imprimida em 1944, em Lisboa, consta uma pormenorizada descrição  da fundação desta Instituição de cariz religiosa, que a torna na mais antiga Instituição da freguesia de Valongo do Vouga, com mais de 400 anos!
Mais completa informação pode ser consultada na digitalização que se segue do:

Estatuto da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição

de

ARRANCADA

 Capítulo I

História


A Irmandade de N. Senhora da Conceição, com sede na capela da mesma invocação, em Arrancada do Vouga, freguesia de Valongo do Vouga, concelho de Águeda e diocese de Aveiro, haverá tido por seu primeiro estatuto do breve do Santo Padre Paulo Quinto, dado em Roma em 1610, que ao fim desta nota vai transcrito, ao qual deve ter sucedido o aprovado em 1648, de que nos dá notícia o Protonotário Ambrósio de Oliveira e Gama, pároco de Valongo, na informação paroquial que escreveu em 1721, cujos dizeres na parte concernente a Arrancada, são como segue:
“No lugar de Arrancada há duas capelas, uma de Stº. António, com retábulo de talha doirada, e outra de Nossa Senhora da Conceição, com três altares, o maior com retábulo de talha doirada e com tribuna, onde está a imagem de Nossa Senhora estofada, e os retábulos dos colaterais são de pedra. Nesta capela há uma irmandade da dita Senhora, com estatutos aprovados pelo Senhor Ordinário em 31 de Agosto de 1643, e consta hoje de 600 irmãos, que todos trazem suas véstias brancas com murças e capelinhas da mesma cor; tem tumba própria com pano de veludo negro, com barra de tela branca, com franjinhas e franjão de oiro, e, quando vão acompanhar os seus irmãos defuntos, levam guião negro e bandeira como da Misericórdia, e tem também 26 clérigos irmãos, que todos acompanham com suas sobrepelizes a Irmandade, sem que por esta assistência e acompanhamento os herdeiros do defunto lhes deem cousa alguma; fazem na dita capela três ofícios de nove lições cada um por cada defunto irmão, com a assistência de nove padres, a quem paga a mesma Irmandade, e dá cera para eles, e pontifical preto com sebastos de brocatel amarelo; fazem duas festas no ano: uma em dia da Visitação, a 2 de Julho, a que assistem todos os irmãos, e outra em dia de Nossa Senhora da Conceição, a 8 de Dezembro, e a nove um aniversário por todos os irmãos defuntos, a que assistem todos os irmãos seculares de véstia e eclesiásticos com suas sobrepelizes a cantar, e no mesmo dia dizem todos missa pelos ditos defuntos, a quem paga a mesma Irmandade, no fim do qual aniversário fazem eleição dos novos mordomos e oficiais da Mesa, que consta de Juiz, Escrivão, Tesoureiro e dois deputados e um andador”.

“Tem este lugar 209 fogos, 479 pessoas maiores, 100 menores e 46 ausentes; 17 clérigos sendo 13 presentes e 4 ausentes, e são por todas as pessoas 642.”

“… Ambrósio de Oliveira e Gama, graduado na faculdade dos Sagrados Cânones pela Universidade de Coimbra, Ben. Do em a Igreja de Nossa Senhora dos Anjos de V.ª de V.de do Patriarcado de Lisboa ocidental, e Arcipreste desta sua Igreja e anexa de S. Tiago do Préstimo e todo o seu distrito, por provisão do Ilmo. e Rev. Cabido da Santa Fé deste dito bispado de Coimbra, Sede Episcopal Vacante. (De informações paroquiais de 1721). Estatuto, o de 1648, pelo qual se regeu a Irmandade até 1715, quando foi substituído por outro escrito pelo referido pároco, Dr. Ambrósio de Oliveira e Gama, homem culto e cuidadoso, que, logo após haver tomado posse da Igreja, reconstituiu com acerto a escrituração paroquial, antes de fartura bastante deficiente.
Sofreram os dois documentos preceituais várias alterações no decorrer do tempo, e em 1861 novo estatuto foi organizado, e este substituído pelo de 1883, aprovado pelo Governador Civil de então, em 13 de Dezembro do referido ano, o qual foi coordenado e escrito pelo professor João Baptista Fernandes de Sousa, inteligente e prestável cidadão, a quem os seus contemporâneos tributaram elevada consideração. Represente este último estatuto modelar conjunto de prescrições, pelo qual a Irmandade se conduziu até hoje, e que somente a nova situação trazida pela Concordata recentemente assinada obriga a substituir, por se tornar agora a Corporação apenas dependente das autoridades eclesiásticas".

                                                Cópia do breve concedido aos confrades 
                                                                            de 
                                              Nossa Senhora da Conceição de Arrancada

Paulo, Bispo, Servo dos Servos de Deus, a todos os fiéis Cristãos, que as presentes letras virem, saúde e  bênção apostólica. Tendo nós cuidado com grandes desejos da salvação do rebanho do Senhor entregue a nosso cuidado pela Divina disposição, ainda que com poucos merecimentos; Convidamos de boa vontade com mercês espirituais, a saber: 

Indulgências e remissões de pecados a todos os fiéis Cristãos a exercitar obras pias e de merecimentos para que apagada a mácula de seus pecados pelo exercício das mesmas obras, mereçam chegar mais facilmente aos gostos da Eterna Bem-aventurança. E como assim, conforme se nos expões, na Paroquial Igreja no lugar de Arrancada, Bispado de Coimbra, está instituída uma pia e devota Confraria de fiéis Cristãos homens e mulheres debaixo da invocação da Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria para louvor de Deus Todo Poderoso, Canonicamente, contudo não por homens de uma especial arte, cujos Confrades amados filhos se desejam exercitar em boas obras; portanto para que os mesmos, e os que pelo tempo forem Confrades da dita Confraria sejam muito mais convidados a se meterem na Confraria desta maneira; e a dita Igreja será tida em devida veneração. Confiando nós na Misericórdia de Deus Todo Poderoso, e na autoridade dos seus Bem-aventurados Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, concedemos e damos a todos os fiéis Cristãos homens e mulheres verdadeiramente confessados e arrependidos, que daqui em diante entrarem na dita Confraria no dia primeiro da sua entrada, se tomarem o SS. Sacramento da Comunhão, e aos mesmos, e aos que agora são, e pelo tempo forem Confrades da dita Confraria também verdadeiramente confessados, arrependidos e comungados, se isto se puder fazer comodamente, aliás pelo menos Contritos invocando na hora da sua morte o nome de Jesus, de coração, se não puderem com a boca. De mais disto aos mesmos Confrades também verdadeiramente confessados, arrependidos e comungados, que visitarem devotamente todos os anos a dita Igreja na festa da mesma Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria desde as primeira Vésperas, até ao pôr do sol, dia da festa, e aí rezarem orações a Deus pela exaltação da Santa Madre Igreja, e extirpação das heresias, e pela paz entre os Príncipes Cristãos, e pela saúde do Romano Pontífice indulgência plenária e remissão de todos os seus pecados por autoridade apostólica, pelo teor das presentes pela autoridade e teor sobreditos, perdoamos misericordiosamente em Deus a todos os Confrades, que do mesmo modo Confessados, arrependidos, e recebido o SS. Sacramento da Comunhão visitarem devotadamente a dita Igreja nas festas do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, e da mesma Bem-aventurada Virgem Maria, e nas festas de Santo António da Pádua, e dos Santos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, e aí rezarem, como acima, sete anos, e outras tantas quarentenas. Finalmente aos mesmos Confrades, quantas vezes forem presentes aos Ofícios Divinos, que se celebrarem na dita Igreja pelo costume dos Confrades ou dos ajuntamentos públicos, ou secretos por exercitar qualquer Obra pia, ou agasalhar os pobres peregrinos ou fizerem paz com os inimigos, ou acompanharem o SS. Sacramento da Comunhão enquanto o levam a algum enfermo, ou os que não puderem fazer isto, dado o sinal de sino, rezarem de joelhos um Padre Nosso e uma Ave Maria pelo mesmo enfermo, ou forem presentes às procissões ordinárias e extraordinárias, quaisquer que sejam que se celebrem de licença do Prelado, e a sepultar os mortos, rezarem o Padre Nosso e a Ave Maria cinco vezes pelas almas os Confrades defuntos que morreram em caridade de espírito, ou reduzirem algum errado ao caminho da Salvação, ou ensinarem aos ignorantes os Mandamentos de Deus, e as coisas que são para a salvação, tantas vezes por qualquer das sobreditas Obras pias, sessenta dias de penitência a eles impostas, ou por eles de qualquer modo devidas pelas presentes, que hão-de durar sempre; mas queremos que se a dita Confraria for incorporada, ou ao diante se incorporar a alguma outra Confraria, ou por qualquer outra razão seja unida por alcançar ou participar as indulgências dela, ou aliás de qualquer modo se institua, as primeiras e quaisquer outras letras tornando as presentes desta maneira de nenhum modo lhe aproveitem, mas desde então sejam nulas por isso mesmo, e que se aos ditos Confrades for concedida por nós alguma outra indulgência que haja durar para sempre, ou por tempo certo ainda não passado por razão das causas sobreditas, ou de outra maneira, as mesmas presentes letras de nenhuma força ou momento sejam. 
Dadas em Roma junto a S. Marcos, no ano da encarnação do Senhor de mil, seiscentos e dez, ao nove de Setembro, aos seis anos do nosso Pontificado.

                                                                             CAPÍTULO II

                                                             Fins da Irmandade

 Art.º 1º. – São propósito da Corporação: Sufragar as almas dos irmãos falecidos; festejar a Padroeira, Nossa Senhora da Conceição, no seu dia de oito de Dezembro, e, se possível, ainda Santa Isabel, que nos primórdios da Irmandade foi também da sua invocação, deixando de ser homenageada em consequência da falta de recursos; acompanhar, incorporada a Irmandade, os irmãos falecidos à sepultura; efetuar, em o primeiro dia útil após a festividade em honra da Virgem Mãe, aniversário das almas com ofício de nove lições.

                                                                                   CAPÍTULO III 

Admissão, direitos e deveres dos irmãos 

Art.º 2º. – Poderão ser admitidos irmãos todas as pessoas de ambos os sexos, maiores de 16 anos, que provem: ter bom comportamento moral, ser católicos e cumprir habitualmente o preceito da desobriga; não estar filiados em nenhuma seita ou associação condenada pela Igreja, nem ter incorrido notoriamente em censura eclesiástica, nem ser pecadores públicos.

O menor não emancipado, carece de autorização de pessoa por ele responsável, e a mulher casada, de seu marido.

Art.º 3º. – O irmão que vier a filiar-se em seita ou associação condenadas pela Igreja Católica, ou for interdito ou excomungado, ou ainda se tornar notório pecador público, será após inquérito e audição do incriminado, quando não haja este produzido satisfatória defesa, excluído da Corporação.

Art.º 4º. – O irmão expulso que tentar ser readmitido, somente poderá ser atendido quando demonstre que cessou o motivo da sua exclusão, por documento passado pelo Pároco.

Art.º 5º. – Serão considerados beneméritos os irmãos que, a juízo da Mesa, bem merecerem por qualquer ato ou atos em prol da Corporação.

Art.º 6º. – O distintivo dos irmãos do sexo masculino nos cortejos festivos e fúnebres, e em todos os atos dentro do templo, continua a ser a opa branca, cor símbolo da pureza de N. Senhora.

Art.º 7º. – Os irmãos do sexo masculino são obrigados a acompanhar, revestidos de opa, à última morada, todo aquele de entre os irmanados, homem ou mulher, que venha a falecer, e a assistir às festividades em honra da Padroeira e de Santa Isabel, e bem assim ao aniversário das almas; rezar ou a mandar rezar dentro de um ano, a contar do respetivos falecimento, por alma de cada irmão extinto, duas vezes o terço do rosário, podendo substituir esta obrigação por missa mandada celebrar em sufrágio das almas de todos os irmãos falecidos durante o ano, que é contado de 6 de Janeiro a igual dia do vindouro ano. A alma de cada um dos irmãos falecidos será sufragada por 10 missas, que mandará rezar, no prazo de doze meses após a morte, a Comissão Diretora em exercício no ano do falecimento.

§ único – Os irmãos falecidos dos lugares ditos póvoas só terão direito a acompanhamento do alto de Brunhido até o cemitério. Se, porém, as famílias dos mortos pretenderem acompanhamento desde a despectiva morada, poder-lhes-á isso ser concedido mediante retribuição que a Comissão em exercício determinará.

Art.º 8º. – Se por ventura vier a falecer algum irmão que o Pároco considere indigno, por manifestações antirreligiosas, de acompanhamento com a cruz de N. Senhor Jesus Cristo, cessam todas as obrigações exaradas no artigo antecedente.

Art.º 9º. – Os irmãos que por seu modo de vida não puderem tomar parte nos cortejos fúnebres e festivos, poderão eximir-se da obrigação mediante avença, cuja importância será determinada em sessão de Mesa.

Art.º 10º. – Todos os irmãos masculinos poderão ser eleitos para qualquer dos cargos da Comissão Diretora, desde que saibam ler e escrever.

Art.º 11º. – A joia de admissão será determinada pela Mesa em sessão, e variará conforme a idade, e bem assim o anual a satisfazer, por cada irmão incorporado, até à festividade em honra da Padroeira.

Art.º 12º. – Se por falecimento de qualquer pessoa estranha à Irmandade, a despectiva família solicitar acompanhamento do morto pelos irmãos masculinos desta, incorporados e revestidos com suas opas, não havendo objeção alguma por parte do Pároco, poderá semelhante pedido ser satisfeito, mediante retribuição a determinar pela Comissão Diretora, sendo todos os irmãos masculinos obrigados a este ato, com exceção daqueles que por incapacidade física ou por sua avançada idade o não possam fazer.

Art.º 13º. – O irmão masculino admitido é obrigado a apresentar-se de opa nos cortejos sessenta dias após a sua admissão.

Art.º 14º. – Sem constituir obrigação punível por falta de cumprimento, é dever de todos os irmãos confessarem-se e comungarem pela festividade a N. Senhora, não só porque alcançam as graças concedidas pelo breve do Santo Padre Paulo Quinto, como ainda porque com semelhantes atos muito contribuem para o levantamento moral do povo.

Art.º 15º. – Nos cortejos devem os irmãos obedecer às indicações dos mordomos em exercício.

                                                                         CAPÍTULO IV

Comissão Diretora e seus deveres 

Art.º 16º. – A Comissão Diretora é constituída pelo Juiz, Escrivão, Tesoureiro e seis mordomos, sendo destes, um o porta-bandeira, e outro o porta-painel, e todos os eleitos em sessão da Mesa após o ofício do aniversário.

Art.º 17º. – Ao Juiz compete determinar todos os atos obrigados por este Estatuto, providenciando para que se cumpram com zelo e ordem, em tal modo que de tudo resulte prestígio para a corporação. Ao escrivão, efetuar toda a escrituração, salvo a existência de um secretário para tal fim; substituir o Juiz em todos os atos quando ocorra qualquer impedimento para que este se desempenhe de suas funções; fazer a chamada dos irmãos sempre que haja de formar-se em cortejo, e bem assim após completo o itinerário deste. As faltas apontadas serão julgadas em Mesa, não devendo nunca baixar de Esc. 4$00 a multa a impor por cada uma delas, quando não devidamente justificadas. Ao Tesoureiro cabe receber todas as quantias provenientes de quaisquer receitas, e bem assim efetuar os pagamentos que forem ordenados pelo Juiz. Aos mordomos, além das incumbências da bandeira e painel nos cortejos, pertence o encargo de efetuarem a cobrança dos anuais pelos que lhes forem presentes pelo Escrivão ou Secretário.

Art.º 18º. – Ao Escrivão ou Secretário compete ainda a organização do orçamento a apresentar na secretaria da Diocese, e bem assim o processo da conta de receita e despesa efetuadas durante o ano, um e outro a fim de serem submetidos à aprovação do Prelado.

Art.º 19º. – A Comissão Diretora cuidará em conjunto da festividade em honra de N. Senhora, que constará do preparo dos irmãos pela confissão na véspera da solenidade, isto é, durante o dia sete de Dezembro, para a comunhão no dia oito, a que se seguirá própria, a missa cantada com sermão, e finalmente a procissão imediatamente ou pela tarde, como mais convier, a todos os atos procurando impor a maior imponência e brilho, como se faz mister à grandiosidade de culto.

Outrossim, providenciará para que seja cantado o ofício-aniversário e a respetiva missa com sermão por alma dos irmãos falecidos sob o império do respeito que demanda a memória dos desaparecidos.

Velará ainda por que todos os paramentos sejam bem conservados, mandando-os reparar e substituir na medida do necessário e das possibilidades, sob resolução da Mesa.

Art.º 20º. – O irmão que haja sido eleito para qualquer dos cargos da Comissão Diretora, e que, sem motivo justificado, se recuse a cumprir o mandato, terá suspensas todas as regalias que aos irmãos confere este Estatuto durante dois anos, ao fim dos quais ser-lhe-á renovado o mandato, ressalvadas circunstâncias excecionais, e se ainda o recusar, será expulso da Corporação, não podendo mais ser readmitido. 

CAPÍTULO V 

A Mesa 

Art.º 21º. – A Mesa será constituída pelos quatro juízes que hajam servido nos quatro anos imediatamente decorridos e pelo juiz vigente, os quais após a eleição da Comissão Diretora, entre eles elegerão o presidente, que presidirá sempre que não compareça o Prelado ou seu Delegado, pois ao Ordinário cabe, por este Estatuto, a presidência efetiva. O Escrivão, o Tesoureiro e o Secretário, se o houver, terão igualmente assento nas sessões para ministrarem todas as informações e apresentarem a documentação que se tornar necessária. Não terão, porém, direito a voto. O Escrivão ou Secretário, procederá à leitura de todo o expediente e de quaisquer documentos cujo conteúdo haja de ser apreciado, pela ordem que lhe for indicada pelo Presidente, e redigirá a ata dos trabalhos.

Art.º 22º. – As sessões de Mesa constituem verdadeiras assembleias gerais, pois podem e devem ser assistidas por todos os irmãos que tenham possibilidade de fazê-lo, para o que serão previamente anunciadas à missa, sendo ouvidos sempre que o Presidente verifique conveniência em consultá-los. São ordinárias as do dia do Aniversário, para a eleição da Nova Comissão Diretora, e a do dia de Reis, para a prestação de contas pela Comissão sainte e posse da novamente eleita, e admissão de irmãos. Todas as demais serão extraordinárias e serão pedidas pela Comissão Diretora ou por grupo de irmãos não inferior a quinze, com fundamento escrito e digno de ser considerado.

Art.º 23º. – A Mesa em sessão resolverá todos os assuntos que interessem à Irmandade. Julgamento de contas, arbitramento de anuais, avenças e joias de entrada, apreciação de faltas, autorização de despesas, grandeza da festividade, aquisições e reparos de parâmetros e insígnias, conservação do templo, todo o melhoramento e todo o caso em que for omisso este Estatuto, são da exclusiva competência da Mesa em sessão. As suas resoluções serão cumpridas ou mandadas cumprir pela Comissão Diretora. Aquelas, porém, que interessem ao culto somente terão efetividade quando sancionadas pelo Pároco.

Merece a minha aprovação o presente Estatuto. 

O Pároco – Padre João Maria Carlos

Aprovado em sessão de Mesa, com a assistência de numerosos irmãos, em 25 de Junho de 1944.

 O Presidente – Joaquim Soares de Sousa Baptista

O juiz vigente – José de Matos Tondela

O antigo Juiz – António Pereira Vidal

O antigo Juiz – Eduardo de Vasconcelos Soares

O antigo Juiz – António de Almeida Carvalhoso

 Aprovo o presente Estatuto da Irmandade da Senhora da Conceição de Valongo do Vouga.

 

Padre Raul Mira

  Vigário Geral

Foi este Estatuto composto pelo Pároco João Maria Carlos, e pelo Presidente da Mesa, Joaquim Soares de Sousa Baptista, e transcrito pelo Secretário, João Soares de Oliveira. 

Notas:
1) - O BREVE: - O breve apostólico ou breve pontifício é um tipo de documento circular assinado pelo Papa e referendado com a impressão do Anel do Pescador, que geralmente tem um comprimento menor e uma importância inferior dos demais documentos pontifícios, como a bula, a encíclica ou a carta apostólica. Refere em geral atos administrativos da Santa Sé. Geralmente pelo seu tamanho, não contém nem preâmbulo, nem prefácio e refere-se a um só tema; por exemplo, o Papa Paulo VI anunciou mediante um BREVE o encerramento do Concílio Vaticano II em 8 de dezembro de 1965. Os Breves surgiram como documentos pontifícios a partir do séc. XV, no pontificado de Eugénio IV e distinguem-se das Bulas, por serem instrumentos destinados a comunicar resoluções com mais rapidez e menos formalismos que as bulas,  tendo menores requisitos. (Da Wikipédia).
2) - COLABORAÇÃO: - Este trabalho teve a colaboração de Isabel Maria Tavares Mendes.
3) - À data da fundação da Irmandade, segundo o Breve do Papa Paulo V, em 6 de setembro de 1610, reinava em Portugal o rei Filipe III  «O  OPRESSOR» (1605 - 1665). Era o tempo da dinastia Filipina de triste memória para a história da independência de Portugal de antanho. Neste período reinava alguma desordem no País correndo sérios riscos a permanência sob o seu domínio de algumas possessões do que viria a ser o Império. «Lutou com crescentes dificuldades para manter intacto  o império ibérico. Várias potências europeias passam a disputar os territórios. Revoltas populares e,  posteriormente, de classes mais altas em Portugal afastam-no definitivamente do trono em 1640». Filipe III de Portugal - o último da dinastia Filipina de Espanha em Portugal. (Do site:https://ensina.rtp.pt/artigo/filipe-iii-de-portugal-o-ultimo-dos-filipes/).